A guerra sendo travada no Vale do Silício, neste momento, é complexa. E boa parte dela envolve as novas especificações da linguagem sobre a qual a web é escrita: HTML, versão 5.
Apple e Google, que há um ano pareciam inseparáveis, se distanciam cada vez mais na disputa aberta pelo território da internet móvel. Mas o HTML 5 ainda os une. Trata-se de um padrão aberto, uma sugestão a ser adotada por todos os browsers, programas que servem à navegação na rede. HTML 5 tem por responsáveis dois engenheiros, um da Apple, outro do Google.
A nova versão da linguagem HTML tem dois objetivos. O primeiro é resolver a questão do vídeo. Browsers com o novo padrão não precisarão de um plugin para passar filmes.
O segundo é permitir a criação de aplicativos de web. HTML 5 possibilita desde o simples arrastar de itens numa janela de e-mail (já implementado no Gmail) até a gravar conteúdo fora da web, no disco local. Há quem sonhe, a partir daí, com o fim dos sistemas operacionais. Toda nossa vida computacional se daria numa janela de browser.
Talvez seja um sonho distante. Mais próximo, embora um bocado difícil, é o fim de plugins e outros elementos que completam a funcionalidade dos browsers, notadamente a linguagem java e o infame Flash, da Adobe.
Mas há um problema, aí.
Enquanto Apple e Google, os ex-parceiros, se digladiam pelos aparelhos móveis, enquanto Facebook e Twitter se encaram na disputa pelas redes sociais, enquanto os poderes no Vale do Silício buscam novo equilíbrio, um velho jogador observa. É a Microsoft.
Os outros gostariam de decidir sozinhos o futuro da internet mas a empresa de Bill Gates tem um trunfo e tanto nas mãos. Eles não inovam há muitos anos, mas o Internet Explorer (IE) ainda é o browser mais utilizado da rede.
Ou seja: a não ser que o IE carregue todas as funcionalidades previstas no HTML5, uns 60% dos usuários da rede passarão ao largo delas.
A Microsoft tem poder mas não o controle. Segundo a empresa Net Applications, a última versão do Explorer, 8, é utilizada por 22,4% dos usuários. O velho IE 6 ainda está nas máquinas de 20% dos navegantes. Para o desespero da Microsoft, este grupo garante seu domínio da rede mas passa ao largo de qualquer novidade tecnológica que tenha ocorrido na última década.
Mesmo que a Microsoft abrace a tecnologia, não quer dizer que os usuários verão mudanças. Oficialmente, a equipe do Explorer diz que apoia o padrão HTML 5. Dizem até que concordam com a necessidade de trazer vídeo para o browser, eliminando plugins.
Mas há um problema aí. O principal concorrente do Adobe Flash, responsável por boa parte da multimídia na web, é um produto Microsoft chamado Silverlight. Eles gostariam de se aproveitar do fato de que o Flash é lento para garantir o controle da web, assumindo então seu lugar.
O compromisso da Microsoft com um padrão aberto, portanto, é apenas parcial. E, sem a Microsoft, HTML 5 não terá muito futuro.
Para a Apple, HTML 5 representaria livrar-se da Adobe. O Flash no Macintosh é ruim demais e às vezes a experiência da web no Windows fica melhor por conta.
Para o Google, HTML 5 quer dizer uma chance de levar a web para celulares e tablets, incluindo aplicativos e padrões abertos. É sua chance de dominar o mercado.
E a Microsoft, o que ganha?
Uma das disputas mais animadas do Vale se decide nesta resposta. A Adobe torce para que sua rival não queira nada com isso.
Por: Estadão
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